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O jovem desafio do trabalho
O jovem desafio do trabalho Juventude e mercado profissional. Talvez seja melhor falar em juventudes e alternativas existentes diante de um mercado árido e desigual, esfinge que propõe o enigma insolúvel: se não tem experiência, não trabalha; se não trabalha, não tem experiência. Nessa relação paradoxal, ressoam palavras como desemprego, subemprego e informalidade. Mas, felizmente, aparecem também opções como economia solidária, associativismo e empreendedorismo responsável. São jovens buscando saídas para uma questão que, certamente, não será resolvida apenas com soluções pontuais como o programa Primeiro Emprego, mas sim com experiências que apontam para relações de trabalho que não reproduzam as vicissitudes do emprego mais tradicional. São iniciativas como as cooperativas Joinha Filmes, de São Paulo, e Musik Fabrik, do Rio de Janeiro, ligadas, respectivamente, a cinema e música. São projetos como os das jovens Ana Paula Assis e Fernanda Oliva, do programa Iniciativa Jovem. Em todos esses casos, o traço comum é a tentativa de alinhavar e consolidar novas formas de atuação no mercado. Ou à margem dele. Formas que – mesmo carecendo de aperfeiçoamento ou ainda incipientes – mostram o desejo de tais jovens de se tornarem sujeitos de seu próprio trabalho. Esse desejo e suas perspectivas são discutidos aqui por estudiosos(as) e, sobretudo, pelos(as) protagonistas do que pode vir a ser um novo paradigma do trabalho no Brasil. Questão de classe A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2001 apontou que cerca de 3,7 milhões de jovens brasileiros(as) entre 15 e 24 anos estão desempregados(as). O mesmo levantamento indicou que a taxa de desemprego aberto para os(as) jovens está em torno de 18%. A média brasileira situa-se em 9,4%. Outro dado: do total de 33 milhões de jovens do país (IBGE, 2000), 17 milhões não estudam. No contingente que freqüenta a escola, 43,2% têm ensino fundamental completo. Outros 43,5% cursam ou já completaram o ensino médio. A minoria – apenas 13,3% – chegou ao ensino superior. As desigualdades ficam explicitadas ao verificarmos os números do desemprego de acordo com a renda familiar. Entre aqueles(as) considerados(as) mais pobres, 26,2% estão desempregados(as). Esse índice alcança 11,6% entre os(as) mais ricos(as). Em relação ao trabalho assalariado, os papéis se invertem. Temos, então, entre os(as) de maior renda, 77,1% de assalariados(as), sendo que 49% com carteira assinada. Jovens de famílias pobres respondem por 41,4% de assalariados(as), sendo que a maioria (74,3%) não tem os almejados carimbos e benefícios em carteira. Tais índices não são apenas reveladores de distâncias existentes entre jovens de diferentes classes sociais no Brasil. Detectam também a estreita relação entre a precária formação escolar e ausência de mais e melhores oportunidades de trabalho. Para o economista Marcio Pochmann, secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da prefeitura de São Paulo, é necessário reformular determinados conceitos vigentes nas ações propostas para a juventude no segmento do trabalho. “Estou convencido de que as políticas que temos para a juventude estão contaminadas pela obrigatoriedade de se entrar no mercado de trabalho”, diz. Em sua análise, Pochmann aponta o erro de uniformizar a juventude e, conseqüentemente, os projetos voltados a esse grupo. “A temática do jovem é um campo relativamente novo de intervenção. Por isso, quando se trata de discutir políticas para os jovens, tende-se a olhar de forma homogênea, sem levar em conta os diferentes segmentos de renda.” De acordo com ele, ao se fazer distinção de classes, evidencia-se uma situação de disparidade consolidada ao longo de gerações. “Quando se investiga essa diferenciação, percebe-se que o problema se concentra entre os mais pobres. Na relação entre educação e trabalho, temos no Brasil a criação de classes dirigentes e a ocupação dos melhores postos de trabalho pelos filhos da classe alta. Para os pobres, a única ascensão é o trabalho. Nosso problema não é apenas o desemprego, mas a desigualdade. Portanto, é fundamental construir mecanismos redistributivos de renda. O governo deveria fazer, de forma pública, o que as classes média e alta fazem privadamente. No âmbito federal, as políticas para juventude não podem ser pautadas por ações pontuais”, constata. Da falência à democracia Há 15 anos estudando aspectos ligados à temática jovem e suas implicações no universo do trabalho, a socióloga Marilena Nakano defenderá, até junho, uma tese de doutorado que analisa a economia solidária e a juventude. Feito a partir das experiências de três empresas que se tornaram cooperativas na região do ABC paulista, o estudo demonstra como as relações de trabalho podem ganhar novos contornos e essência sob modelos de gestão associacionista. A pesquisadora enfatiza a participação de jovens em tais iniciativas e sua convivência com trabalhadores(as) mais velhos(as). “Nessas cooperativas, os jovens produzem experiências importantes. Há aspectos que não se observam em outras empresas, que acabam se tornando lugares de passagem. Nessas empresas, os jovens não desejam permanecer, não estão satisfeitos. Na cooperativa, eles querem ficar, e aí se estabelece uma perspectiva de futuro”, analisa. As empresas abordadas por Marilena em sua tese estiveram em situação quase falimentar. A Conforja, metalúrgica da área de forjaria, tinha 1.700 funcionários(as) e, após a transformação em cooperativa, passou a 261. A Cervin, também metalúrgica, contava com 250 funcionários(as), dos(as) quais 45 tornaram-se cooperativados(as). Dos(as) 400 funcionários(as) da Randi, produtora de cobertores e mantas, 104 integram a cooperativa. Como se pode perceber, são perfis distantes das cooperativas de menor porte. “Tais empresas, hoje, são bastante viáveis. E elas têm um grau de complexidade muito diferente das pequenas cooperativas. Nelas, a produção mais importante é o sinal de fortalecimento da democracia. Há uma outra lógica, um compromisso com o companheiro”, ressalta Marilena. Esse comprometimento reflete-se no aprendizado contínuo de um novo formato de trabalho e na divisão de tarefas e de comando entre jovens e veteranos(as). “Os funcionários, ao assumirem essas empresas, não trazem tanto conhecimento sobre a gestão. Portanto, não existem modelos predefinidos. Eles têm experiência no trabalho, mas não na gestão. Por isso, o cotidiano vai se estabelecendo pelo que eles percebem. E a democracia se realiza formalmente quando os jovens ocupam os cargos de direção da empresa”, enfatiza. Na opinião de Marilena, a chamada economia solidária pode obter resultados mais concretos do que a promoção de programas de caráter paliativo. “O Primeiro Emprego é necessário para o momento. Mas, sem outro modelo de desenvolvimento econômico, não há saída. É preciso ainda verificar como o mercado de trabalho se estrutura em cada região. A economia solidária é uma das alternativas para a questão do trabalho. Mas agir nesse campo ainda é secundário para sindicatos e governos. Existe a Secretaria Nacional de Economia Solidária, o que é um avanço inegável. No entanto, quem tem mais condições de impor as regras ainda é o capital, são as grandes empresas.” De acordo com João Roberto Lopes, coordenador do Ibase e membro da Secretaria Nacional de Economia Solidária, de forma geral ainda há pouco conhecimento sobre o verdadeiro sentido da economia solidária e da livre associação. A partir disso, torna-se fundamental um processo de intensa difusão, que deverá acontecer por meio de cartilhas, cartazes e outras peças de divulgação. Esse material será distribuído, entre outros locais, nas escolas. “As cooperativas e a economia solidária podem ser uma alternativa interessante para o jovem. Mas é difícil que se apresente como uma possibilidade concreta sem um trabalho de formação e de informação”, afirma. João cita o exemplo de incubadoras de cooperativas sediadas em universidades. Tais experiências ajudariam a fomentar uma cultura da economia solidária, contribuindo também para o surgimento de disciplinas sobre o tema, como é o caso da Universidade de São Paulo (USP). Ele destaca ainda a importância de eventos como o 1o Encontro Nacional de Empreendimentos de Economia Solidária, que será realizado de 9 a 11 de julho em Brasília. Nessa ocasião, será apresentado um mapeamento do setor, que servirá de base para novas ações a serem empreendidas. Joinha Os(as) integrantes ainda não são detentores(as) dos meios de produção (câmeras, computadores etc.), mas vêm, da maneira possível, trabalhando para tanto, a partir do desejo de interpretar e partilhar a realidade em que vivem e dentro de um sistema informal, por enquanto, de cooperativa. Falamos do grupo Joinha Filmes. Constituído em 2003 – após a participação dos(as) futuros(as) integrantes no curso de Gestão de Projetos e Captação de Recursos numa oficina de vídeo da ONG Ação Educativa –, o Joinha Filmes é formado por pessoas que não têm, necessariamente, experiência no setor audiovisual. O objetivo principal do coletivo é o aprimoramento profissional nesse segmento e a divulgação de atividades sociais. Moradores(as) da periferia paulistana, os(as) componentes possuem envolvimento com movimentos populares e vivência em debates sobre políticas públicas para a juventude, além de questões de raça e gênero. Vale conferir os breves perfis do quarteto que leva adiante esse pequeno projeto de economia solidária produtora de bens culturais. Gleice Medeiros, 24 anos, tem o ensino médio completo e é responsável pela fotografia e produção. Ela integra o projeto “Você apita”, desenvolvido pela ONG La Fabbrica, apresentando a jovens de escolas municipais temas como mobilidade social e meio ambiente. Márcia Oliveira IzzO (essa é a grafia de seu nome artístico), 33 anos, é professora do ensino fundamental e também fotografa e produz. Atiely Santos, 27 anos, divide seu tempo entre a direção dos vídeos da cooperativa e o trabalho com meninos(as) de rua na Fundação Itaú. Luis Carlos “Baby”, 20 anos, alterna-se no ofício de estoquista de supermercado e no manejo da câmera, seja na Joinha Filmes ou no projeto que tem suporte do Instituto Criar, do apresentador Luciano Huck. Gleice é moradora de Cidade Tiradentes; Márcia e Atiely, de São Miguel Paulista. O caçula da trupe mora em Vila Brasilândia. O primeiro trabalho, em 2003, foi o documentário Atitude na cena, abordagem das ações de diversos grupos populares de São Paulo que desenvolvem atividades sociais e buscam financiamento. O filme foi exibido na 16a Mostra do Audiovisual Paulista, Festival Internacional do Rio de Janeiro e na mais recente edição do prêmio Hutus. Mais recente, o também documentário Paratodos mostra o que pensam e sentem jovens da periferia paulistana em relação à Universidade de São Paulo. As exibições dos vídeos sempre são sucedidas por debates e workshops. Os(as) integrantes do Joinha relatam sua experiência com os grupos que aparecem nos filmes e apresentam técnicas básicas de captação de áudio e imagem. “No Joinha Filmes, cada um tem sua função, mas todos fazem de tudo. Nossa idéia é sempre enfocar a periferia e o jovem”, afirma Gleice Medeiros, sintetizando o funcionamento do grupo nessa pequena declaração de princípios. Os equipamentos utilizados pertencem à Ação Educativa, mas a intenção é obter recursos para adquirir o próprio material de trabalho. Outra perspectiva, a médio prazo, é viabilizar os trâmites jurídicos para que a cooperativa funcione dentro da lei. A objetividade para levantar as produções permeia também o discurso das meninas da Joinha Filmes. A opinião de Gleice a respeito das relações entre jovem e mercado de trabalho é direta. “No mundo de hoje, não há muito como se pensar em carteira de trabalho”, constata. “Nesse sentido, a cooperativa é uma das alternativas. Isso se ela for feita de forma correta, sem gambiarra”, adverte. Ela se refere às práticas de empresas que terceirizam serviços apenas para se livrar de encargos, nas quais funcionários(as) trabalham sob um pretenso regime cooperativado. Atiely Santos é ainda mais contundente em sua análise. “Não existe relação entre jovem e mercado de trabalho. Ou melhor, existe sim: eles são simplesmente utilizados como mão-de-obra barata. Trabalham por uma miséria de salário que não banca nem seus próprios estudos”, detona. Ele se refere, claro, a jovens oriundos(as) das camadas com menor renda. Em relação às cooperativas como opções de trabalho para jovens de comunidades pobres, ela se mostra reticente. Atiely critica o caráter exploratório de determinadas iniciativas. “Há um grande problema. Muitas cooperativas não são auto-sustentadas por jovens. Por isso, a exploração, somada à alienação, toma conta. O jovem só vai querer trabalhar para garantir a sua cota no fim do mês. Um exemplo são as cooperativas de ônibus e vans aqui em São Paulo. Muitos jovens começam a trabalhar às 4 horas e só vão terminar lá pelas 14 horas. E olhe lá!” Silêncio na fábrica de música Nada de 4 por 4, 2 por 2 ou 4 por 8. O compasso reinante na Musik Fabrik é o de espera. A cooperativa de jovens artesãos(ãs) e instrumentistas, sediada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), está com as atividades suspensas por falta de verbas. Mas, ainda que em andamento ralentado, o músico Antonio Espírito Santo e sua turma tentam manter um mínimo de articulação enquanto aguardam por dias melhores. O projeto ganhou forma em 1995, quando o Departamento Cultural da Uerj encampou a proposta para a criação de uma oficina de musicalização para adolescentes. Era, na época, uma extensão das atividades teatrais que a atriz Zezé Motta desenvolvia na universidade, com jovens de localidades como Mangueira, Macacos, Água Santa, Caxias e Belfort Roxo. Chamava-se, oficialmente, Capacitação Profissional. O suporte vinha do programa Comunidade Solidária, criado pela então primeira-dama Ruth Cardoso. No ano seguinte, Espírito Santo elaborou um projeto próprio com o objetivo de trabalhar com jovens em risco social. Começava, então, a tomar corpo a idéia de ir além do mero ensino musical e da confecção de instrumentos. Ao mesmo tempo, o músico e professor amadurecia críticas em relação à abordagem daquela iniciativa. “Criticava o fato de os programas durarem apenas seis meses. Exigiam de nós um currículo com caráter profissionalizante, mas não cuidavam bem dessas metodologias. A maioria das profissões não pode ser ensinada em seis meses. Num período desse, faz-se, muito mal, uma iniciação. Ficou caracterizado para mim que, se ficasse apenas durante esse tempo com eles, não ia conseguir nada”, avalia. As críticas se estendem a outras capacitações profissionais realizadas no mesmo período. Espírito Santo recorda com certa ironia a profusão de cursos de informática que eram ministrados. E faz um paralelo com sua própria experiência quando jovem. “A maioria dos programas mentia, dizendo que os jovens seriam inseridos num suposto mercado de trabalho. No Comunidade Solidária, 80% dos cursos eram de informática. Quando eu tinha a idade dessa garotada, havia milhares de cursos de datilografia. Era exatamente a mesma armadilha. Formavam-se batalhões de datilógrafos sonhando em trabalhar num escritório da Rio Branco”, diz o violonista e percussionista, ex-integrante do grupo Vissungo (voltado à pesquisa musical), cuja trajetória profissional inclui gravações com Milton Nascimento e Wagner Tiso. Esse formato durou quatro anos, com diversas turmas de 40 jovens se sucedendo. Na última, formada por 30 jovens, havia 12 meninas entre 14 e 16 anos. Ao longo dos seis meses, nove delas engravidaram. A circunstância colocava na berlinda, de forma concreta, questões como gravidez na adolescência, escolaridade e desemprego. Novo curso, em moldes diferentes, foi elaborado. Os recursos (bem mais escassos) dessa vez eram da prefeitura do Rio. O número de jovens foi substancialmente reduzido. Os(as) 15 selecionados(as) formariam, efetivamente, a cooperativa. De acordo com Espírito Santo, um calote de seis meses da prefeitura, associado à mudança de governo, deixou a iniciativa sem condições de concretizar ações. O plano original desde 1995, de formar multiplicadores para atuar em suas próprias cooperativas, está, por enquanto, suspenso. Mas isso não significa que não houve produção ao longo desse período e que inúmeras propostas não tenham sido testadas. Assim, lições musicais, de acústica aplicada e de artesanato eram combinadas com métodos de análise de mercado, sempre com um elemento de inquietude e tentando evitar certas modalidades de cooperativas. “Questionávamos a cooperativa formal. As faxineiras da Uerj, por exemplo, são de uma cooperativa. São escravas de alguém. Havia também a exigência legal de que houvesse um número de 20 integrantes. Isso é loucura. Não chegamos a entrar num processo oficial de venda, mas os clientes começaram a aparecer. Então, fizemos tabelas e participamos de algumas feiras. Debatemos, sobretudo, como se estabelecia o preço do produto”, lembra Espírito Santo. Vários instrumentos – de calimbas a grandes tambores, elaborados de acordo com pesquisas étnicas – estão na oficina. A produção, mesmo desacelerada, prossegue. “O projeto está andando e vai sair desse buraco. Estamos formando um grupo de multiplicadores da PUC-Rio [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro]”, relata o músico. César Roberto Milman da Silva, é morador da Pavuna. Ex-aluno do Musik Fabrik, tornou-se um dos monitores do projeto. Ele se mostra completamente cético em relação ao mercado de trabalho e suas normas vigentes. “É cruel. O jovem termina o ensino médio sem preparo nenhum para nada. E aí tem que trabalhar, porque não é de uma família que possa bancá-lo. Todo emprego pede experiência, que ele já tenha carteira. Então, esse tipo de projeto é bem importante. Capacita para trabalhar e expandir o conhecimento, longe desse mercado de trabalho maçante que suga o jovem. Fora a questão do trabalho, o jovem aprende o que está por trás disso tudo. Ganha informação e conhecimento. Conhecimento de vida.” Aos 21 anos, César casou-se recentemente. Divide seu tempo entre os estudos do terceiro período de Filosofia na Uerj – ingressou no curso após o contato com o Musik Fabrik – e a produção de bijuterias artesanais, vendidas na Zona Sul carioca. Na opinião de Antonio do Espírito Santo, as ações do governo nessa relação jovem/mercado/cooperativas deveriam priorizar, principalmente, a formação. “É preciso haver uma política governamental para as cooperativas de jovens. Desde que, simultaneamente, fossem dadas condições para ele estudar.” Empreendedores(as) solidários O termo empreendedorismo está em voga. Empregado até mesmo em propagandas de escolas particulares de ensino fundamental, tornou-se corriqueiro num mercado de trabalho cujas diretrizes reproduzem fielmente preceitos neoliberais. Portanto, o apelo à formação de futuros(as) empresários(as) – hoje ainda na mais tenra infância – distancia-se por completo de idéias associativistas de trabalho. Mas algumas das experiências do programa Iniciativa Jovem caminham num outro sentido. Adaptação brasileira do LiveWire – projeto de empreendedorismo jovem lançado pela Shell em 1982 em países da Europa, América Latina e Ásia –, tem produzido tentativas interessantes de estabelecer diferenciais nesse conceito um tanto desgastado. O programa teve início em 2001 e, no Brasil, é desenvolvido pelo Instituto Dialog, oferecendo assessoria, apoio técnico de especialistas, orientação de profissionais e voluntários(as), incubadora e acompanhamento de mercado. A participação é aberta a jovens de 18 a 30 anos. Um dos critérios levados em conta na análise e na seleção dos projetos é a associação entre empreendedorismo sustentável e desenvolvimento local. O objetivo é gerar oportunidades de trabalho e renda nas regiões de atuação das iniciativas. A sede funciona em Santa Teresa, e a meta é beneficiar esse bairro do Rio de Janeiro e seu entorno. Gerente do Dialog e coordenador do Iniciativa Jovem, Celso Leonardo Barbosa destaca essa relação com a comunidade local e os diferentes perfis dos(as) aspirantes. “O foco está nas necessidades do jovem aqui do Brasil, que esteja totalmente identificado com o desenvolvimento do território onde está colocado o programa. Creio que conquistamos uma diversidade importante. Damos preferência, na hora de um desempate na seleção, aos que estão em desvantagem social. Há todo tipo de perfil, de classe, raça, renda. O mais importante é a vontade de empreender e desenvolver essa região. É bem mais do que falar de negócios. É falar de negócios, sim, mas entrosado com meio ambiente e relações sociais”, explica. Mudez e mudança Como um projeto de intervenção social em moldes mais tradicionais transforma-se numa expressão original, capaz de expressar as vivências de uma comunidade pobre de forma lúdica? O projeto em questão chama-se “Mundo mudo que muda – o cinema mudo como transformação social”. A comunidade é a do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. Fernanda Oliva, 30 anos, á atriz e professora de artes cênicas. Passou pelo programa Iniciativa Jovem. Sua idéia inicial era montar, no Morro dos Prazeres, oficinas de artes e formação de técnicos em artes cênicas, com a montagem de um espetáculo ao fim das oficinas. Isso aconteceu em 2001 e o projeto ganhou o Prêmio Shell/Iniciativa Jovem, no valor de R$ 10 mil, para a viabilização. “Percebi que seria uma grande bobagem. Conversei com a equipe e chegamos à conclusão de que não adiantava concorrer, por exemplo, com a ONG do Gringo Cardia, que já fazia isso”, lembra. Ela se refere ao projeto do cenógrafo, chamado Spectaculu e localizado na Zona Portuária do Rio. A alternativa foi partir para nova opção de projeto social, sair, segundo Fernanda, do macro para o micro. Em 2003, já organizada sob a forma de uma ONG, a Praticável, a equipe formada por quatro professores – além de voluntários(as) de áreas como direito, design, administração, arquitetura e psicologia – arregaçou as mangas. “Em vez de capacitar técnico, preferimos ir ao micro e oferecer o que uma criança necessita: educação e comportamento. Optamos por trabalhar com os hábitos e atitudes do cotidiano. Não quero ensinar que vale a pena ser ator, mas que vale a pena olhar nos olhos e respeitar as pessoas”, diz. Essa guinada gerou o desejo de criar uma ferramenta para trabalhar os aspectos desse dia-a-dia por vezes conturbado. Surgiu, então, o “Mundo mudo que muda”, cuja proposta é produzir um curta-metragem contando a história da comunidade em formato de cinema mudo. A admiração por Charles Chaplin e a percepção do silêncio, muitas vezes imposto a quem mora numa favela, foram matérias-primas para o amadurecimento do projeto. “Quero trabalhar o silêncio como forma de expressão. Na comunidade, às vezes, a única expressão possível é o silêncio. Um gesto, um olhar. Todo mundo viu, mas ninguém fala nada”, analisa Fernanda. Simultaneamente – e voltadas à idéia do filme –, são oferecidas a 40 crianças, entre 7 e 14 anos, oficinas de vídeo, teatro, clown, expressão corporal e grafite. O argumento, já concluído, foi desenvolvido em linguagem de quadrinhos. As primeiras cenas foram gravadas durante o carnaval, e o filme deverá ser concluído até julho. O roteiro do cineasta Rodrigo Infante é enriquecido constantemente com as experiências das oficinas. O projeto conta com suporte financeiro do Instituto Júnia Rabello – braço social do Banco Rural – e tem apoio da Associação dos Amigos e Moradores dos Prazeres. “Queremos aproveitar o universo, mas não apresentar a violência na comunidade. O objetivo é mostrar, de forma lúdica, que alguma mudança é possível”, explica Fernanda. Orçado em R$ 27 mil, o curta será produzido em esquema de mutirão, com equipamentos emprestados e em parceria com o Comitê para a Democratização da Informática (CDI) para a edição das imagens. Além da vitrine Falar em joalheria remete a ambientes sofisticados, lojas chiques, preços exorbitantes. Essa é, de fato, uma das realidades do segmento. Trata-se, no entanto, da extremidade de uma cadeia produtiva que envolve profissionais designers, polidores(as), modelistas em cera, engastadores(as) e cravadores(as). Em 1998, quando trabalhava cuidando de crianças no Play Cel – unidade de lazer do Centro Educacional da Lagoa (CEL), no BarraShopping –, Ana Paula Assis jamais imaginaria trabalhar nesse mercado. Atualmente, ela planeja formar uma cooperativa dedicada a beneficiar as pessoas que trabalham na área. Tudo começou quando a mãe de dois meninos do CEL, que trabalhava com revenda de jóias, convidou Ana Paula para ser sua secretária. Entre uma etiquetagem e outra, ela começou a ter contato com os bastidores da joalheria. “Toda a parte administrativa me fez querer aprender mais. Até então, não via as jóias sendo feitas. Comecei a me aprofundar e investi em cursos setoriais”, conta. Posteriormente, ela começou a dar aulas, além de trabalhar em empresas revendedoras. “Existe muita gente que faz o curso de desenho de jóias e não sabe nada. Fica no mundo da fantasia. A jóia é linda no papel, mas será que é viável?”, perguntava-se. Ao pesquisar na Internet formas de reciclar o conhecimento adquirido, Ana Paula conheceu o Iniciativa Jovem. Seu projeto, inicialmente, era de uma ONG voltada para o setor, para formar aprendizes de ourivesaria. Esse plano acabou sendo reformulado e o objetivo tornou-se a montagem de uma cooperativa. Esse seria, para ela, o modo mais eficaz de fortalecer o segmento. “Quero ajudar em toda essa cadeia de produção. O alvo não é o dono da loja, mas quem está atrás, quem não é visto pelo cliente final. É toda uma cadeia produtiva que, muitas vezes, é esquecida”, analisa. Ana Paula, que tem 29 anos, começou a trabalhar como vendedora em lojas aos 17 anos. Ela é filha de uma professora de dança de salão. Seu pai, apesar de aposentado, continua a trabalhar com fretes. Graças ao esforço de ambos, pôde estudar em colégios particulares e concluiu o curso profissionalizante em administração, oferecido pelo Santo Inácio. De acordo com ela, cerca de 30 profissionais já manifestaram interesse em participar da cooperativa. Antes de investir no projeto, preocupou-se em consultar a Organização de Cooperativas do Estado do Rio de Janeiro (Ocerj), para verificar se já existiam entidades com esse propósito. O nome oficial da organização será Cooperativa de Designers de Jóias e Artesãos-Ourives do Estado do Rio de Janeiro. Ana Paula projeta o perfil dos(as) futuros(as) cooperativados(as). “Serão profissionais de diversas faixas etárias. A ourivesaria, por exemplo, é passada de pai para filho. Há oficinas em que trabalham pais, filhos e sobrinhos. Já os designers são profissionais que fazem cursos de graduação ou cursos livres. São jovens, formados na área de desenho industrial ou design gráfico, que têm interesse na área de joalheria como criadores de projetos. Em todos os casos, é preciso muito treinamento e reciclagem. Isso ainda não é feito porque ainda não existe nenhuma ferramenta de grupo que propicie a esses profissionais essa condição”, percebe. Ao analisar a própria trajetória de vida, Ana Paula expressa sua visão sobre juventude, formação universitária e mercado de trabalho. “Hoje, jovem de baixa renda vai se esforçar para pagar uma universidade particular, porque a universidade pública vai ser preenchida pelos ricos. Acredito que os jovens são educados e estudam para serem empregados. Há outras formas. É essa a idéia do cooperativismo. Mas isso exige um pensamento menos individualista”, ressalva. Coordenador do programa, Celso Leonardo Barbosa concorda com isso, mas chama atenção para os aspectos da legislação que rege as cooperativas, que, para ele, causam entraves. “Precisamos mexer um pouco na lei, tornar a coisa um pouco menos burocrática. Já tentamos desenvolver algumas cooperativas, que pararam por força do trâmite legal, como a exigência de um determinado número de pessoas necessário para começar. Que concepção é essa? O que percebemos é a necessidade de os jovens começarem com uma gestão enxuta e, aos poucos, irem se firmando.” A lei 5.764 de 1971, que estabelece o regime jurídico das sociedades cooperativas, define em 20 o número de pessoas físicas para a formação de tais organizações. João Roberto Lopes diz que o Código Civil permite que sejam formadas cooperativas de um número menor de integrantes. “Ainda é uma questão controversa”, adverte. Ele também percebe dificuldades na lei. “Colocam-se pessoas apenas para cumprir a exigência. Isso cria problemas. Além disso, a lei pode ser burlada tanto de um lado como de outro. Há o risco de se reproduzirem práticas de mercado, com poucas pessoas e muitos empregados. Poderia haver uma limitação no número de contratações.” Rito de passagem Pesquisadora e professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), com doutorado em Sociologia da Educação pela Universidade Complutense de Madri, Lia Tiriba tem como um de seus objetos de estudo os aspectos e perspectivas da economia solidária e formas associativas de trabalho. A temática da juventude brasileira e sua inserção – ou exclusão – nesse universo do trabalho são analisadas com aguçado espírito crítico. “O que se oferece para o jovem é a promessa de emprego que, na verdade, é o trabalho precarizado. Vivemos numa sociedade na qual prevalece o trabalho assalariado. Mas, ao mesmo tempo, esse mesmo trabalho está em crise. Não é possível, em primeiro lugar, prometer tanto emprego”, aponta. Para ela, uma economia popular solidária traz a possibilidade da construção de uma outra cultura de trabalho, diferente da cultura capitalista dominante. A consolidação de outras modalidades de relação no campo do trabalho poderia se constituir em algo novo. “O momento em que estamos vivendo, da crise do trabalho assalariado, é quando a economia popular se torna mais viável”, afirma. Ainda este ano, Lia Tiriba lançará o livro Pedagogias da produção associada: arquitetos, abelhas e outros tecelões da economia solidária. Organizado em parceria com Iracy Picanço, o livro tem 13 artigos, de diversos(as) autores(as), sobre diferentes modalidades, perspectivas e possibilidades da economia solidária, cooperativismo, associativismo, autogestão e produção associada. A pesquisadora adverte para a distinção entre economia popular e economia informal. No primeiro caso, “o trabalho se constitui no principal fator de produção, gênese e, ao mesmo tempo, resultado do conjunto dos demais fatores do processo de produção de bens e serviços”. Fariam parte desse setor, por exemplo, trabalhadores(as) de cooperativas populares, de empresas autogestionárias e também crianças que fazem malabarismos nos sinais de trânsito. Em comum entre economia popular e economia solidária, a negação do emprego da força de trabalho como mercadoria. Na opinião de Lia, é crucial o papel de sindicatos e ONGs na efetivação de formas alternativas de trabalho. “Essa é a possibilidade que temos de fortalecer um outro setor da economia. Este é o movimento da economia solidária: tentar dar organicidade a outras formas que não se enquadram no modelo capitalista. Cada vez mais, torna-se claro para as pessoas que não dá para se apresentarem ao mercado sozinhas. É preciso, minimamente, se associar para enfrentar esse mercado. E tentar outros pequenos mercados que existam dentro deste mercado global”, acredita. Ela define a economia solidária como “uma alternativa fantástica para a juventude”, mas também tece críticas ao número inicial obrigatório de cooperativados(as). “Existem projetos de lei tramitando há anos para flexibilizar isso. Na Espanha, por exemplo, é preciso sete pessoas para formar uma cooperativa. O ideal é começar com um número reduzido.” Atualmente, de acordo com dados do site da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), os(as) cooperativados(as) no Brasil chegam a 5,7 milhões, gerando 182 mil empregos. A participação das cooperativas ficaria em 6% do Produto Interno Bruto (PIB), com exportações em torno de US$ 1,09 bilhão. Lia Tiriba demonstra a mesma preocupação de Gleice Medeiros, da Joinha Filmes, e de Antonio Espírito Santo, da Musik Fabrik, ao se referir a cooperativas fundadas em circunstâncias obscuras. “Uma coisa é cooperativa. Outra é ‘cooperfraude’, ‘coopergato’. Há empreendimentos legalmente constituídos, mas que não são cooperativas. O cooperativismo está sendo utilizado como mecanismo de terceirização. Há empresas que não assalariam diretamente o trabalhador. Isso é muito comum na área de limpeza”, revela. Tais procedimentos, segundo ela, recomendam cautela quando se trata da organização de jovens em formas cooperativadas. “É preciso estimular o associativismo entre jovens, mas com muito cuidado. Não é nosso papel organizá-los em cooperativas para serem terceirizados por uma indústria qualquer para fazer trabalho precário. Por isso, é necessário ter por trás um movimento maior, em nível nacional. Acho que a Secretaria Nacional de Economia Solidária ainda não ocupa esse lugar, mas seu propósito é esse”, afirma. A pesquisadora acredita que, para que a economia solidária conquiste espaço em setores estratégicos da economia, é fundamental a formação de redes, a aliança entre setores cooperativados. Caminhar nesse sentido poderia fazer das cooperativas modelos de relações trabalhistas atraentes para a juventude. “O grande dilema do jovem, hoje, é não ter mais o emprego como a forma pela qual se entrava na vida adulta. Era como se fosse um rito de passagem. Agora, é como se não houvesse mais nada. Há um grande vazio a ser preenchido. Ou se preenche com trabalho precário – como sinônimo de subemprego – ou se pensa num projeto transformador, no qual o jovem seja sujeito e senhor de seu trabalho. Acho que vale a pena investir nisso.” *Alfredo Boneff é jornalista e colaborador do Ibase. Publicado em 28/05/2004.
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